
Chamamos “sempre”
ao que ainda está aqui.
A chávena lascada na borda
espera na mesa,
fiel como um hábito antigo,
guardando o calor das manhãs
que bebemos sem provar.
A casa respira baixinho à nossa volta.
O soalho conhece o mapa dos nossos passos,
a porta da varanda que range
diz o teu nome todas as tardes
e nós já quase não ouvimos.
Lá fora, a árvore que nunca soubemos identificar
enche-se outra vez de folhas,
um verde paciente, insistente,
como se o tempo não fosse
esta coisa que foge
enquanto dizemos “logo vejo”.
É assim que a falta começa:
não quando algo parte,
mas quando fica tanto tempo
que se torna invisível.
A tua voz na divisão ao lado,
a água a correr na torneira,
um riso atirado pelo corredor fora —
tudo isto passa por mim
como luz numa parede,
sem que eu pare
para lhe chamar milagre.
E no entanto,
sei que um dia
daria tudo
por esta terça-feira banal,
por esta desordem viva da sala,
pelo som distraído da tua presença
misturado com o ar.
Por isso tento —
mal, às pressas, mas tento —
encostar o coração ao agora
como quem escuta
se ainda há batimento,
agradecer em silêncio
às coisas que não se foram,
amá-las antes da ausência
lhes ensinar o peso,
para que, quando o vazio chegar,
não diga apenas
que as perdi —
mas que as vi,
mesmo que tarde,
mesmo que por instantes,
enquanto ainda estavam aqui.

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